LINO FERREIRA | VENCEDOR DA 4ª EDIÇÃO DO PRÉMIO CRIOESTAMINAL

 

Qual o objetivo final do projeto agora premiado e quando calcula que será atingido?

O objetivo final será desenvolver novas terapêuticas para o tratamento de doenças cardíacas, especificamente o enfarte de miocárdio. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística de 2001, morrem por ano em Portugal mais de 3300 pessoas com enfarte do miocárdio. Em média, morrem 18 pessoas por dia devido a enfartes. Haverá igual numero de pacientes que sobrevivem a esta doença mas em que há uma deterioração progressiva do músculo cardíaco. Nestes casos, a capacidade regenerativa do músculo cardíaco é limitada e insuficiente para
reverter a perda celular e funcionalidade causada pelo enfarte. O projeto que irá ser desenvolvido no Centro de Neurociências e Biologia Celular (Coimbra) e Biocant (Cantanhede) pretende desenvolver novas terapêuticas celulares para promover a regeneração cardíaca. O projeto utilizará células diferenciadas de células estaminais embrionárias humanas para regeneração cardíaca. Estas células estaminais podem ser propagadas indefinidamente em laboratório e dar origem a células cardíacas em numero suficiente para o seu transplante. O projeto pretende desenvolver plataformas para promover o enxerto das células transplantadas no músculo cardíaco e monitorizar esse processo por técnicas de biologia celular, biologia molecular e imagiologia. O projeto será desenvolvido nos próximos 4 anos.

Em que medida o Prémio Crioestaminal É importante para o desenvolvimento do projecto?

O Prémio Crioestaminal reforçará o financiamento para a realização do projeto. Em geral, a investigação em células estaminais e experimentação animal envolve recursos consideráveis.

Acha que este tipo de prémios podem ser um incentivo À investigação?

Julgo que estes prémios são importantes para estimular a investigação e dar visibilidade à ciência que se faz hoje em Portugal. Nos últimos anos tem-se observado cada vez mais à integração do conhecimento científico na cultura social, e isso deve-se em grande parte a uma maior divulgação da ciência. A rapidez e o impacto que a ciência tem hoje em dia em algumas áreas do saber, requer uma sociedade cada vez mais informada e esclarecida.

Quais as principais dificuldades que tem encontrado como investigador?

Eu julgo que o grande problema da ciência em Portugal continua a ser a falta de um plano nacional estratégico de financiamento a longo prazo. A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), entidade nacional para o financiamento de projetos científicos, continua sem um calendário de financiamento e uma clara definição das áreas científicas a apoiar tendo em conta a conjetura internacional. Esse plano poderia ser elaborado por uma comissão que integrasse investigadores internacionais, investigadores nacionais, membros da sociedade civil e empresarial nacionais, e apoiado pelas diversas forças políticas em Portugal. A falta de

financiamento prejudica grandemente investigadores jovens, em início de carreira científica, pois não conseguem tornar-se independentes e realizar projetos por vezes arriscados mas com grande impacto científico e social.

Considera necessário sair-se de Portugal para se trabalhar em ciência, ou hoje em dia já existem condições para se desenvolver bom trabalho científico?

Eu julgo que há condições em Portugal para realizar um bom trabalho científico. Em geral, temos bons investigadores, estudantes, recursos técnicos e instituições. Julgo que seria bom internacionalizar mais os grupos de investigação em Portugal, atraindo investigadores, alunos de doutoramento e pós-doutoramento estrangeiros. A troca de ideias e experiências é muito importante para o avanço científico.